Linux no. 21 ( dezembro/2001 )

Software Livre no Mundo Globalizado

Penetração no Mercado: Situação Atual e Tendências

A penetração no mercado de software livre pode ser analisada sob duas óticas distintas: o mercado de servidores de aplicações e ambientes de trabalho pessoal, ou desktop.

Os dados que se seguem referem-se principalmente a pesquisas conduzidas a partir dos Estados Unidos. Para o Brasil e a América Latina, não existem iniciativas formais de mapeamento da utilização de software livre. Existem relatos de utilização de software livre em diversos setores, porém devido ao seu caráter pontual não se prestam a análises de maior amplitude.

Não obstante este fato, o Brasil tem sido pioneiro no sentido de se tentar criar legislação favorecendo o uso de software livre em preferência ao proprietário. A cidade do Recife foi a primeira no mundo a aprovar legislação neste sentido, restringindo a compra de software proprietário apenas a situações onde não existam similares livres. Esta decisão é tomada por um conselho integrado por diversos setores da sociedade. Também a cidade de Amparo, em São Paulo, adotou legislação semelhante.

Segundo artigo publicado pela CNET [1], por meio da aprovação de legislação específica, um número crescente de empresas públicas e órgãos governamentais, se vê compelido a adotar soluções baseadas em software livre. O artigo destaca também a liderança do Brasil nesta tendência, com reflexos por toda a América Latina. Ainda segundo o artigo, uma das principais motivações do crescimento desta tendência é o desejo de se encontrar alternativas a monopólios no mercado de software, dominado pelos Estados Unidos. Existe uma preocupação em se ter operações governamentais vitais sob a dependência de um único fornecedor e de suas decisões.

Na Europa, onde foram apresentadas inúmeros projetos e resoluções, os governos federais e estaduais gastaram cerca de U$ 7.8 bilhão de dólares em 2000. No Brasil este gasto se situa na esfera de U$ 200 milhões no mesmo ano.

Listamos a seguir algumas iniciativas de regulamentação do uso de software livre [1]:

França

O parlamento francês encaminhou uma proposta de lei tratando da questão da disponibilidade do código fonte de programas utilizados pelo governo e da adoção de padrões abertos.

Argentina

Foi apresentada uma proposta que determina, com algumas exceções, o uso de software livre em todos órgãos governamentais e empresas estatais

Alemanha

Na Alemanha, o governo patrocinou iniciativas do "German Unix Users Group" (GUUG), para adaptar o software de criptografia GnuPG, para uso de órgãos governamentais. Este projeto menciona as restrições à exportação de software de criptografia dos Estados Unidos.

União Européia

A União Européia solicitou recomendações ao grupo de trabalho sobre software livre, o qual no último ano levantou a possibilidade de que seja adotada pela União Européia "sempre que possível", mas não chegou a implementar de fato esta recomendação.

Espanha

Na Espanha, o parlamento das Ilhas Canárias recentemente aprovou uma resolução multipartidária recomendando o uso de software livre pelo governo.

Ásia

Na Ásia diversos governos têm agido de forma diversa, não propondo legislação específica porém tomando medidas visando reduzir o uso de software proprietário. Na Coréia do Sul, em 1997, as universidades públicas, em dificuldades devido à diminuição em seu orçamento, se viram impossibilitadas de adquirir software. Em resposta a estas restrições, o Ministério da Informação e Comunicação implantou programas de treinamento para administração de sistemas em GNU/Linux.

China

Na China, o governo encoraja o uso da distribuição Red Flag de forma a tentar reduzir a dependência de softwares de empresas americanas, particularmente da Microsoft.

México

O México está patrocinando o projeto Red Scolar, que tem por objetivo instalar sistemas GNU/Linux em 140.000 laboratórios de escolas primárias e secundárias por todo o país e prover seus alunos acesso a correio eletrônico, Internet, processadores de texto e planilhas eletrônicas.

Estes indicadores mundiais refletem o crescimento e confiabilidade de sistemas livres, atestados por diversas pesquisas, que indicam a liderança ou a vice-liderança em diversos nichos de mercado.

Em qualquer análise de emprego de software livre, o exemplo mais marcante de utilização bem sucedida é a Internet pública. Correio eletrônico (sendmail), tradução de números (DNS), roteamento, e diversos aplicativos de infraestrutura da Internet, em sua maior parte sempre foram baseados em software livre.

No panorama mundial, no mercado de servidores, sistemas baseados em software livre como GNU/Linux e FreeBSD são herdeiros de uma tradição iniciada com a disseminação dos primeiros sistemas Unix, criado pela AT&T. Ao adotarem a filosofia de sistemas Unix, e oferecendo uma qualidade e confiabilidade cada vez maior, estes sistemas passaram a assumir um papel importante tanto no mercado de serviços Web como também no mercado de soluções corporativas, onde são vistos com menor desconfiança atualmente.

Constata-se hoje uma tendência de crescimento na utilização de aplicativos livres, notadamente na área de serviços Internet. Dentre estes aplicativos, ressalta-se o servidor web Apache, situado na primeira posição desde abril de 1996, segundo pesquisa de agosto de 2001 conduzida pela empresa NetCraft [2]. Com 58,08% do mercado, possui uma grande vantagem sobre o segundo colocado, o servidor IIS da Microsoft, com uma fatia de 26,47% do mercado.

Sistemas GNU/Linux ocupam também a primeira posição como hospedeiros de serviços Web, de acordo com um estudo de junho de 2001, também conduzido pela empresa NetCraft [2].

Na Europa e em sítios educacionais, segundo dados de uma iniciativa denominada "The Internet Operating System Counter" [3], a liderança de emprego de GNU/Linux é incontestável.

Entre os servidores comprados de um fornecedor, o GNU/Linux ocupou a 2ª posição em 1999 e 2000r.

Para o ano de 2001, segundo a empresa Idaya/freeVSD, a estimativa é de crescimento de 154% da base instalada de equipamentos com GNU/Linux [4], podendo vir a se tornar, em 2002, o sistema operacional dominante no nicho de servidores web. O estudo apontou que entre as razões para este crescimento estão a facilidade de instalação, sistemas de arquivos com log, e interfaces para o usuário mais amigáveis e aperfeiçoadas. Segundo a pesquisa, a área de atividade onde o emprego de software livre será mais intenso é de aplicações internet. Como principais obstáculos do mercado e disponibilidade de suporte técnico.

É relevante notar também que sistemas GNU/Linux, segundo pesquisa realizada em 2000 [5] foram os que apresentaram a maior taxa de crescimento.

Verifica-se hoje também uma tendência de expansão deste mercado. Soluções baseadas em software livre têm obtido uma exposição crescente na mídia impressa e online, atraindo a atenção de muitas empresas e do público especializado.

Existem diversas iniciativas que tentam fazer um mapeamento dos padrões de uso de software livre no mercado corporativo. Uma delas, disponível no site do software Samba [6], que permite que sistemas livres substituam sistemas Windows NT em suas funções de servidores de arquivos, impressão e autenticação. A pesquisa foi preenchida por 2.195 organizações. O maior usuário do Samba é o Banco da América, com 15.000 usuários.

Uma outra iniciativa não sistematizada de se indicar padrões de uso de software livre no mundo corporativo é conduzida pela empresa M-Tech [7].

A tendência de crescimento do mercado de software livre se deve em grande parte ao crescente monopólio de empresas americanas e com o poder que tal monopólio confere a estas empresas no tocante a política de preços e características de seus produtos. Como um exemplo recente podemos citar a nova política de licenciamento do Windows XP, onde a licença de uso será gerada a partir das informações de hardware da máquina, o que impedirá o uso do sistema em computadores diferentes daqueles onde foram originalmente instalados (InfoExame, de setembro de 2001, página 55).

O fator econômico certamente não é o fator determinante. A qualidade de sistemas livres é atestada pela sua ampla utilização e diversos testes de desempenho e confiabilidade conduzidos por diversas empresas idôneas [8].

O panorama no ambiente de trabalho pessoal é completamente diferente. Sistemas Microsoft dominam o mercado em taxas superiores a 90%. A fatia de sistemas desktop equipados com GNU/Linux situa-se em redor de 2%.

A evolução dos aplicativos tradicionais de produtividade e mesmo do ambiente gráfico de sistemas GNU/Linux tem se dado de forma muito rápida e existem diversas alternativas funcionalmente equivalentes aos sistemas proprietários. O ambiente gráfico KDE oferece a suite KOffice, que embora ainda limitada, oferece competentemente a maior parte das funcionalidades básicas.

Os maiores obstáculos à adoção como ferramenta de trabalho residem primordialmente em uma cultura profundamente arraigada de uso de sistemas e aplicativos para ambientes Microsoft Windows. Não obstante o forte fator cultural, algumas empresas têm promovido esforços no sentido de substituir componentes proprietários por outros gratuitos ou livres. No Brasil o caso do Metrô de São Paulo, que optou pela substituição do Microsoft Office pelo StarOffice, da empresa Sun, foi amplamente divulgado [9]. O Metrô de São Paulo disponibiliza também na Internet o material de treinamento desenvolvido em sua campanha interna para adoção do StarOffice [10] A mudança foi apenas parcial pois continua-se adotando sistemas operacionais proprietários da Microsoft como base. Este caso é ilustrativo de uma abordagem alternativa, onde alguns componentes proprietários são substituidos por alternativas gratuitas ou livres.

Nos Estados Unidos, a cidade de Largo, na Flórida, emprega uma solução totalmente baseada em sistemas Unix e terminais [11], com impacto significativo em termos financeiros e de produtividade.

A viabilidade ou não do Linux no desktop é objeto de acentuadas controvérsias. Craig Barret, executivo chefe da Intel, afirma [12] que sistemas GNU/Linux não estarão em condições de competir com sistemas Windows a menos que o número de aplicativos disponíveis seja equivalente nas duas plataformas. A empresa Dell afirma que sistemas GNU/Linux possuem mais chance no mercado de servidores.

Por outro lado, existem alguns fatores a serem considerados. Sistemas GNU/Linux contêm, além do sistema operacional, milhares de outros aplicativos com as mais diversas funcionalidades. A variante comercializada pela empresa Conectiva, sediada em Curitiba, o Conectiva Linux versão 7.0, exibe, após a instalação completa, 2287 aplicativos. Em termos de funcionalidade básica, os aplicativos de ambientes GNU/Linux respondem satisfatoriamente as necessidades mais comuns.

Miguel de Icaza, criador do ambiente desktop GNOME, para GNU/Linux, afirma [13] que GNU/Linux é hoje uma alternativa viável para o desktop corporativo. As aplicações existem e são de boa qualidade.

A adoção ampla de sistemas GNU/Linux em desktops é de difícil implantação devido principalmente a fatores culturais. Não obstante esta dificuldade fatores econômicos e estratégicos como os já citados estão forçando muitas empresas e organismos públicos a reverem suas posições e desenvolver programas de adoção de software livre.

Sistemas GNU/Linux em todo o espectro de uso, de servidores a clientes, são viáveis porém envolvem níveis distintos de dificuldade para sua implementação e um planejamento cuidadoso.

Referências:

  1. Governments push open-source software
  2. Netcraft Web Server Survey
  3. The Internet Operating System Counter
  4. Linux Market to Grow 154% in 2001 predicts Idaya/freeVSD research,
  5. Linux: At a Turning Point?
  6. Samba Survey
  7. Linux Business Applications.
  8. Why Open Source Software / Free Software (OSS/FS)?.
  9. Metrô migra para o StarOffice e reduz o custo de TCO
  10. Apostilas StarOffice 5.1
  11. Secretaries use Linux, taxpayers save millions,
  12. Intel: Linux has 'no place' on desktop
  13. Is Linux ready for the corporate desktop?
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Excelente Médio Fraco Objetiva Extensa Reduzida
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