Internet no Brasil: investimentos em TI e mídia de massa Paulo Lemos Qual a situação atual da Internet no Brasl e a quais as possibilidades de crescimento em termos de número de usuários? Em que segmentos da população há maior difusão do uso da Internet no país? Quais os segmentos com maior potencial de crescimento? A Internet já pode ser considerada uma "mídia de massa" no Brasil? O que significa, para o mercado Internet, a atratividade da economia brasileira em relação aos investimentos em tecnologias de informação, particularmente os que se dirigem à produção de bens e serviços de telecomunicações e informática? Vamos tentar responder a essas perguntas nesse novo artigo da coluna "Economia e Gestão das TI". Nesse sentido, um ponto importante a ser destacado é o que valoriza os aspectos de atração de investimentos (estrangeiros ou não) do mercado brasileiro de tecnologias de informação e Internet. A economia brasileira apresenta um forte poder magnético em relação às grandes empresas de informática, telecomunicações e Internet. Os investimentos em informática e telecomunicações são um componente fundamental para sustentar o desenvolvimento e o crescimento da Internet, considerando que essa nova tecnologia incorpora os reflexos do processo de convergência tecnológica e econômica entre telecomunicações, informática, indústria de mídia e indústria de entretenimento que se intensificou ao longo dos anos 90. As empresas produtoras de bens e serviços de informática e telecomunicações têm representado um dos principais componentes dos investimentos privados no Brasil. Dados recentes demonstram a relevância dos investimentos dessas empresas, seja no total de investimentos efetivamente realizados, seja nas decisões de investimentos apenas anunciados ou programados. Ainda que não seja fácil a tarefa de aferir se todos os investimentos anunciados e programados foram efetivamente realizados, dados da Secretaria da Ciência e Tecnologia e Desenvolvimento Econômico e da Fundação SEADE - órgãos do governo do estado de São Paulo - demonstram que, de 1995 a abril de 1999, as decisões de investimento privado somaram mais de US$ 70 bilhões no estado de São Paulo. Desse total, 19,5% provêm de investimentos privados de empresas de equipamentos eletrônicos (em sua maioria, empresas de informática) e de telecomunicações (mais de US$ 11,5 bilhões ou mais de 16% do total de investimentos foram anunciados por empresas de telecomunicações). Dados do Centro de Informações da Gazeta Mercantil apontam também para um horizonte de programação de investimentos bastante influenciado pelas decisões das empresas produtoras de tecnologias de informação. No período entre 1998 e 2003, as empresas de informática e telecomunicações são as principais responsáveis pela programação de investimentos no Brasil. Dos US$ 427,03 bilhões de investimentos programados, US$ 105,69 bilhões (24,75% do total) foram anunciados pelas empresas de informática e telecomunicações, as quais lideram o ranking dos investimentos por segmentos econômicos. Ao lado da importante base técnico-produtiva gerada pelos investimentos em informática e telecomunicações, as grandes empresas líderes do atual "modelo" de negócios na Internet, os chamados portais, também não escondem seus interesses pelo mercado brasileiro de Internet. Alguns marcos da presença e da investida de empresas estrangeiras no mercado Internet no Brasil merecem destaque, como o anúncio, em dezembro de 1998, da entrada efetiva da American Online (AOL) no mercado latino-americano, particularmente no mercado brasileiro. A AOL é o maior provedor de acesso Internet do mundo, atuando nos EUA, Europa, Japão e Austrália e expandiu consideravelmente suas forças através da compra da Netscape. A entrada no mercado latino-americano está sendo realizada através de uma joint venture com o grupo venezuelano Cisneros, um dos maiores complexos de comunicações do mundo. Uma das maiores mudanças virá com a presença da AOL. Se a AOL tem a desvantagem de ser um nome não muito conhecido no Brasil, tem outra vantagem competitiva bastante favorável. A AOL é um serviço que se consolidou na Web mas que passou pela experiência dos serviços online surgidos nos EUA durante a década de 80 e que funcionavam em redes "fechadas", próprias, antes do surgimento e do crescimento da Web. Assim, a AOL não só sobreviveu ao modelo dos serviços "fechados" como evoluiu para uma das mais importantes empresas da Internet, fortalecida pela associação com a Netscape e a Sun. Estes atributos significam uma capacidade de aprendizagem no universo dos negócios online que praticamente nenhuma outra empresa possui e fazem da AOL um dos mais importantes competidores no mercado brasileiro de Internet. Há, portanto, uma atração global exercida pelo mercado brasileiro de TI e de Internet. Esse interesse é prova irrefutável de que o Brasil pode ser considerado uma das mais importantes economias emergentes em termos do mercado Internet global. Mas e outro lado das questões, o que diz respeito ao tamanho do mercado e suas potencialidades, do ponto de vista do uso da Internet no Brasil? Qualquer análise que procure enfrentar as demais questões colocadas no ínicio do artigo, tem que passar também pela difícil tarefa de lidar com os números sobre Internet. Os números, estatísticas e indicadores sobre Internet são reflexos diretos do estágio de desenvolvimento do lado "comercial" da Internet, que passou a ser utilizada mais intensivamente e a atingir um mercado maior de usuários corporativos e residenciais a partir do boom de utilização da World Wide Web, em 1996. Assim, o "mercado" de informações quantitativas sobre a Internet pode ser considerado ainda "imaturo" dos pontos de vista analítico e metodológico, ainda que não do ponto de vista da disponibilidade. Além desse aspecto, há também o lado das dificuldades de se produzir estatísticas sobre um fenômeno com um alto grau de dinamismo, reflexo da velocidade e da freqüência das mudanças tecnológicas e econômicas que envolvem o desenvolvimento da Internet. Uma iniciativa importante de construção de indicadores Internet e de comércio eletrônico é o trabalho desenvolvido pela OCDE, que vêm produzindo estatísticas inter-países membros da instituição, divididas em "Indicadores de Uso"(estimativas ou "surveys" sobre o número de usuários e respectivas condições de uso) e "Indicadores de Infra-estrutura" (indicadores que mensuram dados relacionados ao número de hosts e servidores, ao Sistema de Nome de Domínio (DNS), aos endereços IP, aos Sistemas Autônomos, à Performance de Redes e ao Comércio Eletrônico). Duas outras iniciativas importantes, além das pesquisas realizadas pela OCDE, são o NUA (iniciativa irlandesa de mensuração da Internet global) e o Graphics, Visualization & Usability (GVU) Center, do Georgia Institute of Technology dos EUA. A pesquisa GVU é importante também pelo fato de que foi a primeira iniciativa a utilizar questionários online. Os dados sobre o desenvolvimento da Internet no Brasil não poderiam ter características diferentes das características globais dos números sobre Internet. As iniciativas no país em relação à quantificação da Internet também podem ser consideradas ainda incipientes, sem no entanto, deixarem de representar importantes fontes de informações. Coincidindo com a tipologia de indicadores Internet proposta pela OCDE, há no Brasil números sobre o uso e a infra-estrutura da Internet. A disponibilidade de pesquisas realizadas por órgãos oficiais de produção de estatísticas (como o IBGE, por exemplo) é bem menor do que a disponibilidade de pesquisas produzidas por empresas do setor privado. O setor público tem se limitado a fornecer números relativos a alguns aspectos da infra-estrutura, sem no entanto, ofertar trabalhos sobre o uso da Internet. Alguns números sobre infra-estrutura são publicados pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil e pela FAPESP. A PAEP (Pesquisa da Atividade Econômica Paulista), realizada pela Fundação SEADE, produziu uma série de estatísticas e indicadores, incluindo, entre outros, os que dizem respeito ao uso de tecnologias da informação e de Internet nas empresas atuantes na economia do estado de São Paulo. Um conjunto de pesquisas importantes, com metodologias e objetivos diferentes entre si e relacionadas ao uso de tecnologias da informação e da Internet, são as realizadas pelo IBOPE ("Levantamento Sócio-Econômico" (LSE), "Pesquisa Internet Brasil" e a "Pesquisa Cadê?/ IBOPE"). Não iremos analisar a 3a Pesquisa Cadê?/IBOPE realizada em agosto de 98, em função da distorção nos resultados ocasionados pela metodologia adotada, dado que o processo de amostragem não tem a mesma qualidade apresentada pelas demais pesquisas do IBOPE. O objetivo do Levantamento Sócio-Econômico do IBOPE é estimar o tamanho dos principais targets sócio-demográficos utilizados pelo mercado publicitário brasileiro e aferir a posse e a difusão de determinados bens e serviços, como automóvel, eletrodomésticos, aparelhos eletrônicos, serviços públicos, TV por assinatura e Internet, entre outros. Os dados disponíveis do LSE do IBOPE referem-se a 1996 e abrangem todo o território nacional, pesquisando domicílios residenciais situados em cidades com mais de 20 mil habitantes, com amostra de 20 mil domicílios e estimativa da população pesquisada de 26.305 mil de domicílios. Um dos principais resultados do LSE do IBOPE é a comprovação da inserção de novos produtos e serviços com alto conteúdo tecnológico como micromputadores, Internet, serviços de telefonia celular e de TV paga, na "cesta de consumo" das camadas de mais alta renda da população brasileira. Os dados do LSE do IBOPE sobre a evolução da presença de micromputadores nos domicílios brasileiros, demostram claramente que há um substancial potencial de crescimento do uso desse tipo de equipamento pela população brasileira. Mesmo considerando que os dados referem-se a 1996 e que desde então tenha havido crescimento nos percentuais, verifica-se que nesse ano, apenas 7,1% dos domícilios no país pesquisados pelo IBOPE possuíam microcomputadores. Assim, o uso da Internet através do microcomputador, porquanto não seja a única alternativa de uso da Internet (considerando que outros dispositivos são previstos como meio de uso da Internet, como a TV, por exemplo), pode ser considerada a principal forma de uso. O mesmo acontece com as linhas telefônicas, outro serviço fundamental e complementar ao uso do microcomputador para o acesso à Internet. Verifica-se que apenas 17% dos domícilios brasileiros possuíam linha telefônica em 1996. Os dados do IBOPE também são importantes para contribuir na discussão sobre o tamanho e as características do mercado Internet no Brasil, em relação às possibilidades de alcance de um mercado de massas. Verifica-se que o grau de difusão do uso dos microcomputadores e da Internet entre as classes de mais alta renda (classes AB) ainda é pequeno, para o ano de 1996. Cerca de 27% dos domicílios das classes AB possuíam microcomputadores em 1996 e apenas 4% desses mesmos segmentos de renda acessavam a Internet. A mais recente pesquisa do IBOPE sobre o tema Internet é a 3a Pesquisa Internet IBOPE, publicada em dezembro de 1998. Os resultados apontaram um total de 2,375 milhões de usuários da Internet, cerca de 6% da população residente urbana nas 9 regiões pesquisadas (regiões metropolitanas de São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre, Recife, Curitiba, Fortaleza, mais o Distrito Federal, que somaram 36.674.128 de população residente urbana em setembro de 1996). Segundo o IBOPE, que selecionou mais de 15 mil pessoas para serem entrevistadas e comporem a amostra da pesquisa, a abrangência da 3a pesquisa Internet atinge 28,4% da população total brasileira e 37,6% do total da população urbana (em relação ao ano de 1996). O campo da pesquisa ocorreu entre 20/07/98 a 02/08/98. O perfil do usuário em relação à freqüência de utilização indica que uma quantidade significativa pode ser considerada de heavy users, ou seja, 46% dos usuários acessam a Internet todos os dias. Quanto ao local de acesso, pelo menos 46% do total são usuários domésticos, dado que 36% acessam exclusivamente de casa e 10% de casa e do trabalho. Cerca de 28% acessam exclusivamente do trabalho, 10% exclusivamente da escola/universidade e 16% de outros locais de acesso diferentes dos já citados. Os dados disponíveis também não permitem uma melhor avaliação do ponto de vista das diferenças regionais dos mercados Internet no Brasil. A 3a Pesquisa Internet do IBOPE tem uma abrangência que atinge 28,4% da população total brasileira e 37,6% do total da população urbana, em relação ao ano de 1996, para as 9 regiões pesquisadas. Mas, qual a importância, em termos do uso da Internet, das demais regiões do país que não fizeram parte da amostra da pesquisa do IBOPE? Mas o que mostram os dados da 3a Pesquisa Internet Brasil do IBOPE (realizada em 1998), sobre a difusão do uso de micromputadores e Internet? Seja pelo local de presença dos computadores (nas residências ou no trabalho) ou pelo percentual de usuários de computadores nas classes AB, ainda há um gap considerável para o crescimento da difusão dos computadores nessas classes. Cerca de 52% das classes AB possuem computadores em suas residências e no trabalho e aproximadamente 46% dessas classes utilizam o computador. O mesmo se pode dizer em relação ao número de usuários Internet entre as classes AB. Segundo a 3a Pesquisa Internet Brasil do IBOPE, apenas 18% da classe AB utilizou Internet. A pergunta sobre as possibilidades de o mercado Internet atingir um mercado de massas no país, ainda aguarda dados mais atualizados para ser melhor e mais adequadamente respondida. Porém, os dados disponíveis são importantes para demonstrar que ainda há um potencial de crescimento considerável do uso da Internet nas classes de mais alta renda, mesmo na hipótese (bastante plausível) de intenso crescimento do uso da Internet e da difusão de micromputadores nas classes AB desde a época da realização das pesquisas analisadas. Portanto, uma conclusão importante e que ressalta também as consideráveis potencialidades de crescimento do mercado brasileiro de Internet é a que demonstrou que a Internet ainda é um tecnologia consumida por uma "elite" de usuários situados nas classes de maior poder aquisitivo. E o que também é importante constatar: ainda há espaço para a difusão da Internet mesmo entre os usuários oriundos das classes A e B. Esse potencial ainda deve ser ocupado antes de um possível crescimento do mercado Internet em direção à população das classes de renda C/D/E. Nesse sentido, pode ser precipitada a afirmação sobre um suposto "esgotamento" da difusão da Internet entre as classes de mais alta renda. Os dados disponíveis permitem a conclusão de que o mercado consumidor residencial dos serviços de acesso à Internet ainda está longe de ser considerado um mercado de massas, seja porque parte das classes de mais alta renda ainda não ingressou nesse mercado, seja pelo fato de que a Internet ainda está longe de alcançar ampla penetração nas camadas de mais baixa renda. Algumas referências online: Internet
como mídia de massas: leia artigo da University of Southern
California, área de Computer-Mediated Communication. OECD (Organisation for Economic
Co-operation and Development). Veja os importantes
esforços da instituição para a produção de
informações quantitativas sobre a economia dos seus
países-membros. GVU: Graphics, Visualization &
Usability (GVU) Center, Georgia Institute of Technology.
Confira o pioneirismo sobre as pesquisas online na
Internet. NUA: site irlandês que monitora os
números da Internet global. SEADE (Fundação Sistema Estadual de
Análise de Dados). Além de informações sobre a PAEP,
veja também dados sobre investimento no estado de São
Paulo. IBOPE (Instituto Brasileiro de Opinião
Pública e Estatísticas). Acompanhe alguns resumos das
pesquisas sobre Internet no Brasil. Investment
Watch,
do Brazil Investment Link (Amcham SP). Faça
pesquisas online sobre os anúncios de investimento no
Brasil |