ANAPATRICIA M. VILHA DI AGUSTINI
Mestre em Administração / Marketing - IMES
email: anapatricia@directnet.com.br

RESUMO

Ao mesmo tempo que o conceito de organização virtual está crescendo, está visível que algumas empresas estão caminhando para ser virtual. Não é uma tarefa fácil porque a transformação é complexa, requer um longo tempo e deve ter a participação de todo o pessoal da empresa.

As empresas precisam planejar meios para tornar-se uma organização virtual e manterem-se competitivas, visando obter lucros.

Esse artigo objetiva detalhar questões acerca dos conceitos de organização virtual com vistas à duas abordagens diferenciadas. Busca ainda analisar as características das organizações virtuais, bem como seu ciclo de vida. E por fim, expõe um modelo de gestão empresarial para uma organização virtual.

1) Introdução

A empresa convencional não terá mais espaço no mercado, pois esse tipo de empresa, que fica atrelada ao local onde está, não terá eficácia. Isto acontece por duas razões: em primeiro lugar, seu custo tenderá a ser mais alto do que a das outras, e, em segundo lugar, ela poderá estar longe demais dos clientes.

As grandes empresas estão se fragmentando em várias empresas menores ou Unidades Estratégicas de Negócios, mais ágeis, autônomas e descentralizadas; a alta tecnologia e as fronteiras digitais alteram o conceito de empresa e de trabalho.

Para Rasmessen (1990, p. 77), o trabalho do futuro estará muito mais orientado à atividade de planejamento, análise e criatividade; os custos das empresas do próximo milênio poderão ser reduzidos entre 40% e 80% pela presença cada vez menor de intermediários (Silva, 2000).

Neste cenário, despontam uma série de atividades que permeiam a organização e que recebem o adjetivo de virtuais. A palavra virtual está sendo utilizada pelos estudiosos e pela mídia, para caracterizar trabalhos tradicionalmente feitos em papel, e que agora estão sendo realizados via eletrônica. O principio de virtualidade vem do campo da informática, mais precisamente dos computadores.

Algumas atividades, tais como manufatura virtual, engenharia virtual, serviço virtual, comércio virtual entre outras são chamadas virtuais por atenderem a essa característica. A exemplo da manufatura, atividades de apoio para a fabricação de um componente ou de um produto que normalmente são feitas através de papel, hoje já estão sendo feitas via eletrônica. Existem casos em que tarefas executadas sob específico controle e manuseio do operador, e portanto manuais, estão sendo efetuadas através de computadores, eletrônicamente.

A análise desenvolvida neste artigo baseia-se no pressuposto de que o desenho das organizações e o desenho das tecnologias da informação e comunicação estão se transformando crescentemente em uma tarefa única (Roberts & Grabowski, 1996, p. 10; Lucas & Baround apud Fulk & De Sanctis, 1995, p. 338; Cash et al., 1993, p. 27).

Por tecnologias de comunicação e informação compreende-se um conjunto compreensivo de componentes utilizados para viabilizar o tratamento de informações, envolvendo computadores, softwares, redes de comunicação eletrônicas, redes digitais de serviços, tecnologias de telecomunicações, protocolos de transmissão de dados, etc.

As tecnologias de comunicação e informação podem ser rastreadas desde meados da década de oitenta, quando estas tecnologias começaram a se disseminar no cenário organizacional mundial. Estas organizações têm recebido uma pluralidade de denominações, como adocracia, tecnocracia, mercado interno, eterarquia, organização do conhecimento conectada e organização virtual (Roberts & Grabowski, 1996, p. 12).

2) Definindo organização virtual com vistas à duas abordagens diferenciadas

O virtual possui a potencialidade para se atualizar sem passar à concretização efetiva ou convencional.

O tema "organização virtual" ainda não possui um conceito definitivo, pois as discussões sobre esse assunto começaram a muito pouco tempo. É por essa razão que os centros de pesquisa de sistemas de informação ou mesmo em gestão de negócios, têm publicado sistematicamente em seus fascículos, notas, editoriais e artigos sobre organizações virtuais.

De acordo com Strausak (1998, p. 11), existem atualmente duas abordagens principais para se definir organizações virtuais.

3) Primeira abordagem

A primeira definição se refere a uma organização virtual como uma empresa que faz mais uso das tecnologias de informação e comunicação do que a presença física, para interagir e conduzir seus negócios (Strausak, 1998, p. 12).

A organização cuja estrutura e processos estão sendo mais amplamente reconfigurados pelo uso intensivo das tecnologias da comunicação e informação, são denominadas de organizações virtuais.

O atributo "virtual" é utilizado para denominar uma lógica organizacional, onde as fronteiras de tempo, espaço geográfico, unidades organizacionais e acesso a informações são menos importantes, enquanto que o uso de tecnologias de comunicação e informação é considerado altamente útil (Klüber, 1998, p. 95; Zimmermann, 2000; Siebert, 2000).

Neste contexto, o grau de intensidade na utilização de tecnologias de informação e comunicação, frente a presença física para interagir com clientes externos ou internos, realizar negócios e operar como um todo, determina o grau de "virtualidade" desta organização particular.

O virtual (ou o processo de virtualização) possui duas características principais que facilitam a sua aplicabilidade à realidade organizacional.

Desprendimento do aqui e agora.
De acordo com Lévy (1996, p. 18), uma organização que se virtualiza, se desterritorializa, se torna "não presente". Apesar desta característica fundamental, as organizações virtuais não são totalmente independentes do espaço-tempo de referência, uma vez que devem sempre se inserir em suportes físicos, para constante atualização.

Clientes podem contatar organizações virtualizadas, independentemente de onde estejam, desde que tenham acesso a um computador e a um modem.

Passagem do interior ao exterior e do exterior ao interior.
Os limites não são mais dados. Os lugares e tempos se misturam (Lévy, 1996, p. 18).

A virtualidade organizacional como uma estratégia racional competitiva, cada vez mais é utilizada e as tecnologias de comunicação e informação estão possibilitando a emergência de um desenho de estratégias organizacionais diferenciadas .

Venkatraman e Henderson (1998, p. 27), sistematizaram as perspectivas dominantes sobre organizações virtuais, informando que a virtualidade organizacional é refletida em indicadores distintos, mas interdependentes. De acordo com os autores, a harmonia entre os indicadores e uma forte plataforma das tecnologias de informação e comunicação gera um modelo considerado adequado para o contexto virtual no qual a organização virtual se insere. O modelo está sintetizado na Figura 1:

Figura 1: Perspectivas dominantes sobre organizações virtuais

Indicadores e Características

Estágio 1

Estágio 2

Interação com o Consumidor

Customização dinâmica

Comunidades de consumidores

Incentivo ao Conhecimento

Propriedade organizacional

Especialidade de comunidades profissionais

Fonte: adapatada de Venkatraman e Henderson (1998, p. 40)

Interação com o consumidor.
O primeiro indicador de virtualidade organizacional (interação com o consumidor), revela fundamentalmente o relacionamento da organização com o cliente. Em seu primeiro estágio, a virtualização organizacional permite que consumidores indiquem os parâmetros para customização dinâmica de produtos e serviços. Empresas que usam a Internet como meio de interação com os consumidores também têm se beneficiado da customização dinâmica, permitindo que consumidores configurem passo a passo um computador, estabeleçam seu preço e ordenem sua fabricação e envio, a qualquer país (Venkatraman & Henderson, 1998, p. 40).

O segundo estágio de virtualização do indicador interação com o consumidor se concretiza através da emergência de comunidades eletrônicas de consumidores

Muitas organizações estão incentivando a sua criação através do desenvolvimento de bulletin boards, chats, e-mail e informações sobre seus produtos, marcas e áreas correlatas em seus sites da Internet, de forma que os consumidores possam interagir com outros consumidores, possibilitando um canal direto de comunicação com a organização, que pode utilizar as informações dos consumidores para adicionar valor aos seus produtos.

Incentivo ao conhecimento.
O segundo indicador de virtualidade organizacional (incentivo ao conhecimento), trata da disseminação de conhecimento.

No primeiro estágio de virtualização do indicador incentivo ao conhecimento, a organização preocupa-se com o compartilhamento do conhecimento explícito, mas também, do conhecimento tácito da organização, ou seja, a ampliação deve-se a disseminação do conhecimento individual.

O segundo estágio de virtualização do indicador incentivo ao conhecimento refere-se à utilização do conhecimento de comunidades de profissionais localizadas além das fronteiras organizacionais. Crescentemente, as organizações estão buscando conhecimento em redes estendidas, onde fornecedores, consumidores, empresas aliadas e a comunidade profissional são as principais fontes. Possibilitadas pelas tecnologias de informação, as organizações têm se beneficiado das comunidades virtuais em emergência para o aumento de sua efetividade.

No modelo de virtualidade organizacional de Venkatraman e Henderson (1998, p. 43), os indicadores e estágios de virtualização relacionam-se dinâmicamente. Atualmente, a eliminação das restrições espaço-temporais tradicionais nas organizações virtualmente organizadas, tem gerado o desenvolvimento de padrões diferenciados de coordenação e interação organizacionais. Se as organizações, inicialmente, utilizaram a tecnologia exclusivamente para automatizar e replicar as arquiteturas burocráticas, atualmente uma nova geração de tecnologias tem superado as limitações de tempo e espaço que delinearam a burocracia clássica, possibilitando a configuração de organizações diferenciadas de informação e comunicação.

A tendência rumo à diminuição da diferenciação hierárquica e da centralização em organizações virtualmente organizadas também é clara.

4) Segunda abordagem

A segunda abordagem define uma organização virtual como uma rede de organizações independentes, que se unem em caráter temporário através do uso de tecnologias de informação e comunicação, visando assim obter vantagem competitiva. A organização virtual se comporta como uma única empresa por meio da união das competências essenciais de seus membros, que podem ser instituições, empresas ou pessoas especializadas (Strausak, 1998, p. 12).

Zimmerman (2000), informa que uma organização virtual é "uma rede temporária de empresas independentes, instituições ou indivíduos especializados que, através do uso das tecnologias de informação e de comunicação, espontâneamente reúnem-se para aproveitar uma oportunidade apresentada pelo mercado. Elas entregam suas habilidades principais e objetivam criar uma parceria de soma de valores. Uma organização virtual age como se fosse uma única organização".

Jägers et al. (1998, p. 69), afirmam que toda organização virtual é uma rede organizacional, mas nem toda rede organizacional é uma organização virtual, conferindo às organizações virtuais uma parte de um processo sinérgico por decorrência.

4.1) Por que a criação de uma organização virtual?

Diante do contexto acimo exposto, Lipnack (1993, p. 26 e 27) preconiza que existe uma quantidade razoável de argumentos que explicam a necessidade da existência de uma organização virtual, o que será visto à seguir.

Compartilhamento de recursos.
Devido a agilidade que o mercado demanda, as empresas buscam o compartilhamento de recursos, cada qual utilizando a sua habilidade principal para conquistar uma oportunidade de mercado, que se apresenta de uma maneira rápida e temporária.

Compartilhamento de conhecimento.
Atualmente nenhuma empresa pode fazer tudo o tempo todo. É impossível para qualquer empresa manter todo o conhecimento necessário para fabricação e venda de produtos e serviços no mercado globalizado por si só. A empresa terá que associar-se a parceiros que complementem a necessidade desse conhecimento, de tal forma que a soma das parte consiga confeccionar o todo.

Rateio de custo.
É outro fator motivador para a formação das organizações virtuais, pois o item custo é um limitador na viabilização de novos produtos ou projetos, inibindo a competitividade no mercado.

Cadeia de suprimentos.
A economia atual está baseada nos sistemas de informação e na economia de serviços. A estratégia de economia de serviços lidera potencialmente a rentabilidade. Porém, os serviços dependem da manufatura. A manufatura por sua vez, não é somente um consumidor principal de serviços, como também gera um uso individual saudável de compra de serviços. A atuação isolada das empresas não terá mais espaço dentro da economia moderna.

Agilidade.
As exigências cada vez mais específicas, personalizadas, imediatas e complexas do mercado consumidor, forçam as organizações a diminuírem o ciclo de vida do produto. Portanto, a agilidade das comunicações e troca de informações sobre o produto ou projeto é essencial.

Acesso a mercados globais.
Com a formação das organizações virtuais, os participantes terão a capacidade de usufruir de um mercado muito mais abrangente.

Os sistemas de gerenciamento corporativos são antiquados e modelados nas organizações hierárquicas, antigas e ultrapassadas.
Essas estruturas não são mais necessárias atualmente, uma vez que os computadores, equipamentos e recursos de telecomunicações podem fazer melhor uma série de trabalhos que antigamente precisavam de controle e gerenciamento de pessoas.

Soluções globalizadas.
A potencialidade de conseguir soluções parciais para a agregação ao produto final deixa de ser local, passando ter rapidez de funcionamento obtida através de parceiros estabelecidos em qualquer ponto.

Os sistemas de fabricação ou produção das empresas estão antiquados pois são baseados ainda nos conceitos de Ford e Taylor.
Os japoneses já estão demonstrando que novas metodologias de produção devem ser implementadas, pois permitem um gerenciamento antecipado dos estoques e dos pedidos de clientes.

Produtividade com qualidade.
A forma de conseguir um aumento substancial de produtividade com qualidade é concentrar o trabalho nas áreas em que a empresa domina a tecnologia, deixando para os parceiros da organização virtual, os trabalhos em que o domínio da técnica não é o seu cotidiano.

A informação sozinha não melhora a produtividade.
As empresas tem muito a aprender sobre a utilização da informação. Os sistemas são ainda baseados em conceitos contábeis, que nunca foram revisados com profundidade e não contribuem para a produtividade, principalmente se levar em conta a proporção de investimentos efetuados com a tecnologia de informação.

Competitividade.
A somatória dos esforços acima conduzem a uma posição de liderança competitiva. A competitividade é atualmente a preocupação predominante na estratégia de crescimento nas empresa modernas.

4.2) Características das organizações virtuais

Tendo em vista as definições expostas acerca do que concerne-se organização virtual, explicadas no item 4, pode-se enumerar características comuns às mesmas. Jägers et al. (1998, p. 71), apresentam a seguir algumas características.

Cruzamento de fronteiras organizacionais.
Em uma organização virtual é necessário que haja a cooperação de múltiplos especialistas, pertencentes a diferentes áreas.

Competências essenciais complementares.
As empresas participantes se complementam, onde cada empresa contribui com sua competência essencial.

Dispersão geográfica.
As empresas não precisam necessariamente estar próximas umas das outras.

Participantes em mudança.
A organização virtual pode ser composta por diferentes empresas a cada dia, de acordo com as necessidades e oportunidades de negócios que forem surgindo.

Igualdade entre as partes envolvidas.
Os membros têm um relacionamento igualitário, baseado na confiança mútua entre as partes.

Comunicação eletrônica.
A existência da organização virtual está vinculada às tecnologias de informação e comunicação.

Além disso, Strausak (1998, p. 15), ainda ressalta o oportunismo como mais uma característica das organizações virtuais, ou seja, a organização é formada para aproveitar uma oportunidade de negócios, sendo desativada quando o objetivo for atingido.

4.3) O aspecto tecnológico operacional ligado à organização virtual

A engenharia virtual também está sendo caracterizada como virtual, porque não se utiliza mais do papel e mesmo da prancheta de desenhista para elaborar o projeto e desenho de produtos. A elaboração de projetos e produtos na engenharia, desde há muito tempo vêm sendo efetuadas através de ferramentas de CAD (Computer Aided Design), ou de CAM (Computer Aided Manufacturing). A engenharia eletro-eletrônica utiliza ferramentas da família CAEDS (Computer Aided Eletronic Design System). Com a aparição do conceito de engenharia concorrente ou simultânea, e com as facilidades de comunicação, a engenharia de produtos ou de fabricação está sendo possível ser feita através de ferramentas de groupware e workflow, sendo que os participantes não necessariamente precisam estar no mesmo local físico. Ao contrário, o conceito de engenharia virtual pressupõe a possibilidade de vários profissionais estarem trabalhando simultâneamente no mesmo objeto – projeto de um produto ou desenho de um componente – quilômetros de distância entre eles. Na engenharia virtual também já está sendo utilizado os conceitos de simulação do mundo real. Ao se projetar um produto, ou uma linha de produção, ou a logística de armazenamento de componentes, os aplicativos de simulação já conseguem virtualizar a realidade, auxiliando sobremaneira os projetistas (Davidow & Malone, 1993, p. 84–99).

Apesar das atividades operacionais ligadas à alta tecnologia serem diferentes, estas tem algo em comum, pelo menos nos seguintes itens:

  • a infra-estrutura de sistemas de informações está baseado totalmente na tecnologia de informação e tecnologia de comunicações;
  • a localização geográfica passa a ser menos importante;
  • os executores das atividades as fazem remotamente, em boa parte da organização; e
  • os recursos tendem a estar voltados para os negócios da empresa.

Uma organização virtual compreende estas atividades virtuais. Nelas, a manufatura, a engenharia, o serviço, o comércio também são virtuais. Se não totalmente, pelo menos uma parte substancial das atividades da organização é virtual.

4.4) Ciclo de vida de uma organização virtual

Tornar-se uma organização virtual é um processo evolutivo de ações e reações de projeto e gerenciamento no desenvolvimento de um ambiente de negócios, bem como nos objetivos e no comportamento das empresas participantes. Esse processo pode ser visualizado na forma de um modelo de ciclo de vida (Merkle, apud Troger, 2000).

Dentre as razões estratégicas para adoção do modelo de organização virtual, duas podem ser destacadas (Merkle, apud Troger, 2000):

  • compartilhar recursos, instalações e eventualmente competências a fim de ampliar o alcance geográfico ou o tamanho aparente que um concorrente pode oferecer a um cliente; e
  • dividir os riscos e custos de infra-estrutura para candidatar-se a concorrência.

4.4.1) Ciclo de vida de Acordo com Fuchs

Segundo Fucks (2000), existe uma distinção de cinco fases do ciclo de vida de uma organização virtual.

Pré-fase.
É caracterizada por uma análise da estratégia e do processo de decisão do iniciador, na forma de uma auditoria para analisar as forças ou fraquezas, oportunidades e pressões, bem como competências e recursos necessários e disponíveis no momento. Com base nesses resultados, deve ser tomada uma decisão: se a organização deve permanecer só, adquirir ou fundir-se a outra companhia ou cooperar com parceiros. A decisão de compreender a estratégia escolhida pela cooperação com outras companhias é o passo final da pré-fase.

Configuração.
A configuração é a fase onde a organização virtual é constituída. Ocorre durante a associação, quando a empresa que tomar a iniciativa e começará a procurar e selecionar os parceiros que tenham os recursos e competências suplementares necessários a definição da estratégia, quando os parceiros potenciais pré-selecionados começarão uma discussão e o processo de negociação, que requer muitas interações, onde ocorre o comprometimento - estágio final da fase de configuração, quando os parceiros concordaram nos objetivos comuns e têm um modelo mental comum da organização virtual.

Projeto.
A fase de projeto deve implementar os objetivos e roteiros formulados em padrões que são derivados dos objetivos da organização virtual. Esses roteiros determinam a aplicação dos processos de referência, tecnologias de informação e comunicação, logísticas e aspectos culturais.

Operação.
A fase de operação é a real fase de geração de valores da organização virtual. Para uma organização virtual estar em funcionamento, processos de referência devem ter sido definidos e, para a conformidade dos objetivos da organização virtual de seus participantes, um processo de controle deve ser instalado, que distinguirá questões ou níveis de controle operativos, estratégicos e normativos. Se desvios nos níveis de controle normativo ou estratégico da organização virtual são muitos grandes que não possam ser solucionados, a organização virtual entra na fase de dissolução.

Dissolução.
A dissolução pode ocorrer na forma do final da sua existência, quando todas as relações entre os parceiros são desfeitas, não significando que os parceiros param as atividades entre eles. As relações normais entre os consumidores e fornecedores podem substituir as relações da organização virtual; ou, então, na forma do relançamento da organização virtual, significando que um número de parceiros da organização virtual está ainda convencido de que a forma cooperativa é o melhor veículo para compreender seus objetivos. Esses parceiros podem decidir mudar as regras, excluir parceiros, convidar novos parceiros ou mudar a estratégia. Se os parceiros remanescentes decidem relançar sua organização virtual, eles se dirigem à fase de configuração, em que devem atualizar a política da organização virtual.

Nesta perspectiva, o ciclo de vida proposto por Fucks (2000), pode ser apresentado de acordo com a Figura 2:

Figura 2: Ciclo de Vida de acordo com Fucks


Fonte: Fucks (2000)

4.4.2) Ciclo de Vida segundo a análise de Mickler

Mickler (2000), propõe um ciclo de vida para as organizações virtuais, composto de cinco fases, identificados a seguir.

Comunicação da Necessidade.
A organização ou um associado inteira-se da demanda de um produto ou serviço especializado. A atenção à necessidade deve ser comunicada por meio da Internet, de um telefonema ou fax, ou então, uma conversa pessoal.

Constituição.
As capacitações humanas, financeiras, materiais e de capital são avaliadas. As core competencies são comparadas aos requisitos específicos de consumidores. Recursos adicionais, que forem necessários, são localizados com o uso de tecnologias de informação. Uma união pouco coesa é formada: sua função é dar o ponto de partida para direcionar as necessidades dos clientes em qualquer lugar, a qualquer tempo.

Contrato.
Planos e estratégias são feitos com o conhecimento e experiência de peritos e entre os membros da organização. Os contratos são preparados por um representante da organização virtual. Espaço é contratado temporariamente e a infra-estrutura das comunicações estabelecida. Serviços e matéria prima são procurados. Fontes de trabalho são identificadas.

Produção.
A produção real começa. Constantemente a organização virtual verifica a si própria para uma comparação entre o capital e os requisitos dos clientes e fornecedores, quando, então, as áreas de deficiência são observadas. Nada é estático.

Dissolução/Reconstituição.
Depois de se desenvolver todo o processo, os especialistas são destituídos, os contratos pagos, o capital retornado e o cliente satisfeito. A fase de reconstituição de uma organização virtual é absolutamente imprescindível. Após um projeto do cliente completado, outro projeto surge e o formato de recursos da organização deve mudar para adaptar-se aos novos requisitos.

Então, a organização tem a chance de tornar-se uma entidade que aprende (learning entity). Ela pode testemunhar seus próprios erros objetivamente, e tomar atitudes corretivas para finalizar um processo errôneo, eliminando um contratante de uma lista de fornecedores preferenciais ou estudar a competição. Novas dinâmicas podem ser construídas com novos parceiros. De fato, permitindo-se a separação, a organização rejuvenesce e cresce mais forte.

A disponibilização das fases do ciclo de vida de uma organização virtual, pode ser visualizada a seguir, conforme Figura 3:

Figura 3: Ciclo de vida para Mickler

Fonte: Mickler (2000)

Após uma análise dos principais modelos de ciclo de vida de uma organização virtual, é importante salientar que ainda que não se pode ter uma posição definida sobre qual das abordagens é a melhor, pois os estudos a esse respeito estão apenas começando. Porém, pode-se dizer que a melhor forma de visualizar os ciclos de vida apresentados na realidade de uma organização virtual em formação vai depender de muitos fatores como mercado, objetivos etc., os quais se mostram no contexto em que a organização virtual ou real estiver inserida.

5) Modelo de Gestão Integrada de uma organização virtual

O modelo de gestão empresarial adotado ou assimilado pela maioria das empresas ainda é um modelo estruturado pelos conceitos contábeis, que reflete o conceito de centralização da hierarquia e, onde prevalece a disputa interna dos departamentos em detrimento ao foco nos negócios.

A mudança de um sistema de gestão empresarial tradicional para um sistema de gestão empresarial para organização virtual deveria ser projetada segundo um modelo em que os gestores tivessem a convicção, não necessariamente a certeza, de que através desse modelo, a empresa estaria apta para ser competitiva no mundo dos negócios.

As preocupações com a gestão empresarial para organização virtual deveriam estar baseadas nos seguintes pontos (Rasmessen, 1991, p. 108):

  • estratégias de gestão empresarial virtual nos negócios virtuais: quais oportunidades e ameaças para a empresa?;
  • virtualização das atividades: as indústrias tradicionais e os novos setores de conhecimento intensivo estão preparados para a virtualização?;
  • concepção distribuída de novos produtos: como fazer?;
  • marketing: como vão se alterar os nossos hábitos de consumo?;
  • logística: como será realizada adistribuição de produtos tangíveis e intangíveis?;
  • segurança e privacidade: como realizar o acesso à informação, às transações comerciais e financeiras?;
  • infra-estrutura de tecnologias de comunicação e de Informação: que equipamentos e serviços potencializam a empresa virtual?;
  • trabalho real na empresa virtual: quais os limites da desatualização espacial e temporal?; e
  • os recursos humanos na empresa virtual: que perfil buscar dos novos colaboradores?.

No modelo de gestão empresarial voltado à uma organização virtual, o fluxo das informações e a estrutura de dados, são basicamente orientadas por critérios de centros de custos e, em alguns casos, por critérios de centros de lucro. O advento da era da informação tornou obsoleta muitas das premissas fundamentais da indústria, e a medida que as fronteiras se diluem, as estratégias e a identidade das empresas envolvidas também mudam (Kaplan, 1997, p. 3).

O modelo de gestão empresarial deve atender ou abranger todas as áreas de processos administrativos da empresa. Na figura 4, temos um idéia de um modelo de gestão empresarial, compatibilizado à realidade de uma organização virtual:

Figura 4: Modelo de sistema de gestão


Fonte: adaptada de Oliveira (1992, p. 68)

Kaplan (1997, p. 5), infere que a tecnologia tem forte ligação com estes principais impulsionadores de gestão empresarial acima diagramado, que são:

  • a produtividade dos trabalhadores do conhecimento e prestadores de serviços;
  • a qualidade do produto e serviço, a capacidade de resposta aos desafios de todo tipo;
  • a globalização dos mercados, das operações e da concorrência;
  • a terceirização de certas atividades de produção, distribuição, vendas, serviços e funções de suporte;
  • o partnering e a formação de alianças estratégicas; e
  • a responsabilidade social e ambiental.

6) Considerações finais

A organização virtual aparece como um modelo de corporação do século XXI, sustentada por uma radical mudança dos conceitos clássicos de organização e divisão do trabalho.

Porém, as vezes as organizações virtuais são confundidas com aquelas empresas montadas na sala de visita ou no quarto. Embora estas possam, realmente ser consideradas virtuais, o que mais caracteriza esse tipo de empresa não é a ausência de escritórios ou instalações físicas, e sim a capacidade de produzir produtos e serviços sob demanda.

Para definir o que é organização virtual, há que se ampliar os conceitos sobre realidade virtual, muito comum com o advento da Internet. Organização virtual é uma entidade, bem mais complexa e poderosa e que poderá afetar o mundo dos negócios mais rapidamente do que ele esteja preparado.

Este artigo analisou como as tecnologias de informação e comunicação estão sendo utilizadas como uma estratégia racional de virtualização organizacional. Seja na busca de maior interatividade com o consumidor, de integração da cadeia de suprimentos e/ou do incentivo ao conhecimento, o objetivo maior da virtualidade organizacional é o do aumento da competitividade organizacional na era da informação que se consolida.

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